sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

blrumm...!

eh, eh, que fixe, o mundo é mesmo só este lugar solitário. blrummm...!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

respirar(-te)

cuspir de imediato a dor enrolada, não permitir que os fios se entrelacem e me puxem para o fundo. cuspir a tua ausência, os teus corpos que nunca te trouxeram, arrancar esta imperfeição, explode coração, dá um estoiro e deixa-me viver.
exigir o presente, quero este momento, só assim, adeus, até já, olá.
a memória, cuidado com ela: guardar sobretudo os alicerces e a capacidade de construir; apagar tudo o que é comezinho, pequenino, depois de filtrado.
respirar fundo. há-de haver um dia em que acabará, ter essa certeza. respirar fundo e abrir caminho.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

pedaço diário

continua um fim de outono muito solarengo. levantei-me uma hora depois do despertador tocar e senti de imediato que todos os planos para hoje iam ser alterados - hoje vai ser à medida de ir sendo. análises? não me apetece; ir à junta de freguesia? amanhã é melhor altura; sento-me em frente ao portátil e vejo o correio: um mail a alertar para a matança das focas bebés no árctico; impressiona, levanta as eternas perguntas sobre a raça humana que não têm resposta ou têm apenas uma, tão óbvia, tão irremediável que decido passar à frente. não reenvio o mail, apago-o. faço a barba e observo o meu rosto; comparo-o com fotografias antigas que tenho na memória: é já tanto o passado, cheio de coisas boas, cheio de coisas más; a memória lá está a confirmar isso tudo e entro numa espécie de transe onde só meu corpo está aqui, mecânico. corto-me no lábio, debaixo da narina, e o sangue e a dor obrigam-me a ver o que estou a fazer. meto-me debaixo do duche, hoje não lavo a cabeça, lavei ontem, hoje não quero, não me apetece. visto-me e tomo o pequeno almoço; estendo a roupa. continuo a pensar no que posso e quero fazer neste dia. sair e tomar café, ora aqui está uma boa ideia!
saio do café e acendo um cigarro. bebi o café ao balcão, ainda agora saí de casa, não quero voltar já. sento-me no banco da paragem do autocarro, o sol bate-me de chapa. não está ninguém na paragem e passam poucos carros na rua. alguém dá um pontapé numa garrafa de plástico vazio que pára perto de mim. penso em miúdos mas não, reconheço o homem, é a segunda vez que o vejo; ele levanta os olhos e estanca por instantes, fixa-me como às vezes as pessoas fazem, como se qualquer coisa as tivesse obrigado a olhar (a ver), como se despertassem de qualquer lugar mais mecânico... senta-se a meu lado e cheira mal; tem as unhas sujas. a roupa está limpa. vai pedir-me um cigarro, digo a mim próprio; não, outra vez - tira um do bolso e acende-o. ficamos ali ao sol a fumar e sei que ele não deve ir a lado nenhum, sei que também ele deve estar a pensar em como ocupar o tempo. apetece-me uma cerveja, pressinto que a ele lhe deve apetecer várias. ou então é já mesmo a vontade de se estar a cagar para tudo (muito, pelo menos) que se lhe tornou maior do que esse mesmo tudo. olho para calçada, a cabeça ligeiramente virada para o seu lado, de forma que o vejo sem olhar para ele. o braço do meu lado está pousado na perna, a outra mão segura o cigarro e a cabeça descai-lhe um bocado. vejo-nos, de repente, como se estivesse fora dali, do lado do sol: dois homens de olhares fixos, pensativos, a fumar um cigarro ao sol numa paragem de autocarro que não lhes trará nenhum destino...
apago o cigarro e venho-me embora. volto para casa. o tempo passa. volto às pequenas coisas mecânicas, é isso, vou deixar o pensamento mandar, começando por colocar o corpo em piloto automático: 1º lavar a loiça, 2º fazer a cama, 3º arrumar o quarto, 4º...
hoje fazia anos a minha mãe.
hoje fui pela (talvez) terceira vez ao ginecologista.
está tudo ligado já se sabe. a primeira vez foi pouco antes de perder a virgindade. (menti à médica em relação à idade). a segunda vez foi porque fiz um aborto (já engravidou? não, fiz um aborto). hoje foi porque sim e sinto-me estranha.

talvez pela minha mãe e pela memória do aborto. talvez o j. que apareceu hoje e me comoveu porque hoje o dia era dele também. a mãe, o aborto.

caminhei de manhã para o trabalho. não fui sozinha. mas dormi e acordei sozinha.
caminhei de tarde para fora do trabalho. não fui sozinha.
caminhei de noite para casa. sozinha. onde estou e como estou agora.

não sei se será mais isto. ou a mãe ou o aborto. tudo junto. que raio de estranho dia este.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

(...)

sentado na cama vou-me movendo seguindo o sol que entra pela janela e ilumina até o pó e o fumo do cigarro; faço tempo - é engraçada esta expressão, tempo é mesmo daquelas coisas que não podemos fazer, que não sabemos fazer; depois emendo: deixo o tempo passar; e é outra que tal, acaso poderemos alguma vez não deixar o tempo passar? cruzo as pernas, deixo as mãos tombarem no regaço e fecho os olhos para o sol; durante alguns momentos quase sinto o tempo passar através do meu corpo dividindo-o em partículas cada vez mais pequenas que depois se espalham pelo quarto e se confundem com o pó.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

via láctea

ando há horas no meio do silêncio e do vazio, entrei numa câmara de descompressão e cá continuo; a vida muda quando menos se espera e, mesmo quando esperamos, nunca é como pensámos - embora também já saibamos isso.
vejo as estrelas, perto e longe, aproximo-me delas, afasto-me: hoje sou um "surfista prateado" às voltas pelo universo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

título

sou pela paixão, certo do cancro e pela "Ave Maria" dos Xutos e Pontapés. Não flores. quero-te.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

quarto certo (para cama incerta)

fica o quarto à minha mercê, ao meu capricho. demorei tanto a chegar, agora só ficando ou partindo.
e vai comigo, o quarto, agora somos cúmplices - amamo-nos, isolamo-nos, separamo-nos.
o meu egoísmo espelha-se no meu quarto e logo lhe digo:
- amigo, gosto muito de ti, mas és tu que vens atrás de mim.
ele vem e ás vezes toco-lhe dentro - e ele quer que eu fique lá; é dorido o meu quarto, custa-lhe perceber que rebentar é o melhor remédio. ele não deve ter em atenção a atmosfera instalada; parece-me mesmo que é o último lugar para onde quer olhar; mas como é assim, não há dúvida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

gina

olho para mim e não vejo nada. gostava de dizer isto aos meus procriadores, mas eles não têm net. e, no limite, sou sempre eu que não soube limar a vivência e que não soube crescer - e deixei-me ir. agora já vou em direcção à noite. hello, i love you...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

bestiall

mmas aaagggoora,,,
e
ee

´e a séericooar,
yrsaavessaº

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

excessivo?! - sim.

hoje fico por mim apenas - e estou bem. não desejo nada nem ninguém. vou ficar mais uns "hojes" assim, tentado ver alguma coisa. céptico versus humanus, será que isto faz sentido? tantas vezes já fui ao fundo e agora acredito com certeza que só daqui se pode opinar. não, eu não jogo nem na política, nem no futebol, nem no amor. de que é que falamos quando falamos? ninguém tem uma resposta total, ninguém sabe para onde ir. podemos aprender a separar o lixo, devíamos aprender a não fazer lixo. podemos aprender a não magoar, devíamos aprender a gostar. estamos tão à frente que já pouco - nada - vemos onde estamos. as relações entre humanos derretem-se como cera alimentada por um pavio e esse pavio é a nossa ignorância. racionais, chamamo-nos nós? só se for a brincar. brincar com quê? coisas sérias?! o que são? já pensei muito sobre isso e não tenho nada a dizer. isto é em parte mentira mas e é assim que me vou espatifando. também não quero esta guerra de chamar à atenção. eu próprio também gosto de brincar.
mas sim, vou dormir.
(no Darfur, no Bronx, na Guatemala (por exemplo), na China, no Pólo Norte e no
deserto do Pólo Sul, em África e na Ásia, na Oceânia, na Tchéchénia, à volta do Mar Cáucaso, do Mar Morto e do Mediterrâneo - quem pode dizer o mesmo?)

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

ilusão


há um elefante bebé à procura de ser um elefante adulto; mal sabe - mal consegue - ver dois passos à frente. se parar transforma-se em pedra, avançando tornar-se-á sempre pó. pelo meio estica a tromba e apalpa, cheira, inala: pensa que pensa pouco e não sabe onde ir buscar mais informação. já ouviu falar em conhecimento, assim ao de longe, mas não vê sinais do que isso possa representar. a menos que se refiram ao marfim...

terça-feira, 28 de agosto de 2007

cada x -

o elefante cá dentro tem medo dos ratos que por aí andam; ou seja, até posso ser grande e ter quase toda a gente à distância - nada disso é verdadeiro. sempre fui pouco racional e agora cada vez menos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

despejo II

e agora que a garrafa se partiu, com um estrondo que me parou o batimento cardíaco, como é suposto limpar o vinho que se espalha? sento-me e espero que seque? fujo daquilo que fiz? ou calmamente limpo a confusão e saio altiva? espero não me afogar. o líquido vermelho parece aumentar de volume a cada dia.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

mar dentro

se hoje chegasses a mim e me dissesses mar ao ouvido, eu seria um golfinho e levar-te-ia com carinho até ao fundo de nós

terça-feira, 21 de agosto de 2007

castanho e cinzento

da janela, as nuvens ocupam metade do horizonte, a parte superior do céu da noite.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

fiz uma coisa ou duas na minha vida. hoje e como vai sendo habitual. para além de este verão (modesto) também não permitir muito mais. a coisa é geral, não se pode negar. mas hoje fiz uma coisa ou duas na minha vida e, mesmo sabendo a pouco, também me sabe a muito. amigo sérgio godinho, obrigado.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

(des)abafo

quanto mais se larga o fogão, o frigorífico, o andar e o carro, mais desamparados ficamos e aí ainda se sente um vento de liberdade; só aí. "debaixo do vulcão", somerstet maugham. gostava de gostar outra vez e só o conseguirei se seguir o vento. ser uma partícula dum fractal. enlouquecer o melhor possível. defecar no carro, na moradia, no avião e até no espaço; na família, nos amigos, nos inimigos, em todos, afinal de contas.
e partir com boas lembranças.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

entramos sem saber

entramos sem saber como no nosso umbigo e depois não conseguimos sair dele. esburacamos tanto que não há fundo que nos valha. bem vistas as coisas é assim que sabemos que estamos vivos dentro de nós. de outra forma sairíamos para o mundo e depois teríamos que começar a pensar nele e nas pessoas que estão nele. e nas pessoas dentro dessas pessoas, e nos concretos factos da vida de todos eles. que chatice seria se não houvessemos nós aqui a desconstruirmo-nos antes que consigamos desconstruir o resto. vamos por partes. primeiro eu. depois o resto. o bom disto tudo é esta liberdade narcisista de sermos sem que ninguém saiba nada de nós. aparentemente somos todos fantasmas aqui. por enquanto é bom. vou encher-nos de mar até nos afogarmos juntos.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

despejo

queria conseguir despejar-me como uma garrafa de vinho. queria ficar a olhar para o encarnado tinto a escorrer, com a angústia de o ter desperdiçado e no entanto aliviada por conseguir fazê-lo. a garrafa congelada em que o volume do seu conteudo excedeu a sua capacidade, embora já não sirva a ninguém em qualidade. o vinho estragado por não ter sido bebido. a rolha que, ressequida, colou ao vidro. demasiado tempo ao sol. demasiado tempo ao gelo. tudo me estraga.

terça-feira, 17 de julho de 2007

fazer

fazer um desenho de mim para depois me lembrar de como sou. fazer uma canção de mim e depois adormecer com ela. fazer um poema eu e depois recitar-me. fazer-me uma droga e depois aliviar-me. fazer verdade e então afogar-me. fazer-me vergonhoso e abanar-me. fazer silêncio de mim para depois acordar comigo.

domingo, 15 de julho de 2007

elogio à minha cidade

cansados vão os corpos para casa dos ritmos imitados doutra dança, a noite finge ser, ainda uma criança de olhos na lua com a sua cegueira da razão e do desejo.

a noite é cega e as sombras de Lisboa são da cidade branca a escura face, Lisboa é mãe solteira, amou como se fosse a mais indefesa princesa que as trevas algum dia coroaram.

não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite, o vento enfim parou, já mal o vejo por sobre o Tejo, e já tudo pode ser tudo aquilo que parece na Lisboa que amanhece...

o Tejo que reflecte o dia à solta, à noite é prisioneiro dos olhares, ao cais dos miradouros vão chegando, dos bares os navegantes, os amantes das teias que o amor e o fumo tecem.

e o Necas que julgou que era cantora e que as dádivas da noite são eternas, mal chega a madrugada tem que rapar as pernas, para que o dia não traia Dietrichs que não foram nem Marlenes.

não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite...

em sonhos é sabido não se morre, aliás essa é a única vantagem de, após o vão trabalho, o povo ir de viagem ao sono fundo, fecundo em glórias e terrores e aventuras.

e ai de quem acorda estremunhado, espreitando pela fresta a ver se é dia, a esse as ansiedades ditam sentenças friamente ao ouvido, ruído que a noite, a seu costume, transfigura.

não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite, o vento enfim parou, já mal o vejo por sobre o Tejo, e já tudo pode ser tudo aquilo que parece na Lisboa que amanhece...

sérgio godinho, Lisboa que amanhece, "vida real" 1986

quarta-feira, 11 de julho de 2007




na lisboa em que vivo

na lisboa em que vivo presto-me nos últimos meses a cuidar só do que não é meu. não cuido dos afectos não cuido do cão não cuido das plantas que moribundam no quintal não cuido do mar que me espera não cuido do que não espera por mim. não cuido das costas que me doem que se farta não cuido do corpo que não se fortalece para suportar as costas que não me aguentam em pé não cuido de andar nem de nadar. não cuido da fruta dos legumes e da água. cuido do trabalho que é para todos fora de mim e nem a todos interessa. cuido a escrita sem cuidar as palavras de mim. cuido do prazer dos cigarros como nunca cuidei sendo que este nunca é sempre relativo já se sabe. e estou a esmorecer. não é nada em concreto. não é um mal de que padeço. é uma forma de estar. de levar até aos limites do intolerável. para depois renascer. e vistas bem as coisas nem é tão mau assim. renascer é bom e já estou a começar a sentir... não sentem?
aqui estamos então. desatentos às coisas imensas que acontecem no mundo e atentos ao que é aqui já e agora.