quarta-feira, 25 de julho de 2007

fiz uma coisa ou duas na minha vida. hoje e como vai sendo habitual. para além de este verão (modesto) também não permitir muito mais. a coisa é geral, não se pode negar. mas hoje fiz uma coisa ou duas na minha vida e, mesmo sabendo a pouco, também me sabe a muito. amigo sérgio godinho, obrigado.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

(des)abafo

quanto mais se larga o fogão, o frigorífico, o andar e o carro, mais desamparados ficamos e aí ainda se sente um vento de liberdade; só aí. "debaixo do vulcão", somerstet maugham. gostava de gostar outra vez e só o conseguirei se seguir o vento. ser uma partícula dum fractal. enlouquecer o melhor possível. defecar no carro, na moradia, no avião e até no espaço; na família, nos amigos, nos inimigos, em todos, afinal de contas.
e partir com boas lembranças.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

entramos sem saber

entramos sem saber como no nosso umbigo e depois não conseguimos sair dele. esburacamos tanto que não há fundo que nos valha. bem vistas as coisas é assim que sabemos que estamos vivos dentro de nós. de outra forma sairíamos para o mundo e depois teríamos que começar a pensar nele e nas pessoas que estão nele. e nas pessoas dentro dessas pessoas, e nos concretos factos da vida de todos eles. que chatice seria se não houvessemos nós aqui a desconstruirmo-nos antes que consigamos desconstruir o resto. vamos por partes. primeiro eu. depois o resto. o bom disto tudo é esta liberdade narcisista de sermos sem que ninguém saiba nada de nós. aparentemente somos todos fantasmas aqui. por enquanto é bom. vou encher-nos de mar até nos afogarmos juntos.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

despejo

queria conseguir despejar-me como uma garrafa de vinho. queria ficar a olhar para o encarnado tinto a escorrer, com a angústia de o ter desperdiçado e no entanto aliviada por conseguir fazê-lo. a garrafa congelada em que o volume do seu conteudo excedeu a sua capacidade, embora já não sirva a ninguém em qualidade. o vinho estragado por não ter sido bebido. a rolha que, ressequida, colou ao vidro. demasiado tempo ao sol. demasiado tempo ao gelo. tudo me estraga.

terça-feira, 17 de julho de 2007

fazer

fazer um desenho de mim para depois me lembrar de como sou. fazer uma canção de mim e depois adormecer com ela. fazer um poema eu e depois recitar-me. fazer-me uma droga e depois aliviar-me. fazer verdade e então afogar-me. fazer-me vergonhoso e abanar-me. fazer silêncio de mim para depois acordar comigo.

domingo, 15 de julho de 2007

elogio à minha cidade

cansados vão os corpos para casa dos ritmos imitados doutra dança, a noite finge ser, ainda uma criança de olhos na lua com a sua cegueira da razão e do desejo.

a noite é cega e as sombras de Lisboa são da cidade branca a escura face, Lisboa é mãe solteira, amou como se fosse a mais indefesa princesa que as trevas algum dia coroaram.

não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite, o vento enfim parou, já mal o vejo por sobre o Tejo, e já tudo pode ser tudo aquilo que parece na Lisboa que amanhece...

o Tejo que reflecte o dia à solta, à noite é prisioneiro dos olhares, ao cais dos miradouros vão chegando, dos bares os navegantes, os amantes das teias que o amor e o fumo tecem.

e o Necas que julgou que era cantora e que as dádivas da noite são eternas, mal chega a madrugada tem que rapar as pernas, para que o dia não traia Dietrichs que não foram nem Marlenes.

não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite...

em sonhos é sabido não se morre, aliás essa é a única vantagem de, após o vão trabalho, o povo ir de viagem ao sono fundo, fecundo em glórias e terrores e aventuras.

e ai de quem acorda estremunhado, espreitando pela fresta a ver se é dia, a esse as ansiedades ditam sentenças friamente ao ouvido, ruído que a noite, a seu costume, transfigura.

não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite, o vento enfim parou, já mal o vejo por sobre o Tejo, e já tudo pode ser tudo aquilo que parece na Lisboa que amanhece...

sérgio godinho, Lisboa que amanhece, "vida real" 1986

quarta-feira, 11 de julho de 2007




na lisboa em que vivo

na lisboa em que vivo presto-me nos últimos meses a cuidar só do que não é meu. não cuido dos afectos não cuido do cão não cuido das plantas que moribundam no quintal não cuido do mar que me espera não cuido do que não espera por mim. não cuido das costas que me doem que se farta não cuido do corpo que não se fortalece para suportar as costas que não me aguentam em pé não cuido de andar nem de nadar. não cuido da fruta dos legumes e da água. cuido do trabalho que é para todos fora de mim e nem a todos interessa. cuido a escrita sem cuidar as palavras de mim. cuido do prazer dos cigarros como nunca cuidei sendo que este nunca é sempre relativo já se sabe. e estou a esmorecer. não é nada em concreto. não é um mal de que padeço. é uma forma de estar. de levar até aos limites do intolerável. para depois renascer. e vistas bem as coisas nem é tão mau assim. renascer é bom e já estou a começar a sentir... não sentem?
aqui estamos então. desatentos às coisas imensas que acontecem no mundo e atentos ao que é aqui já e agora.