cansados vão os corpos para casa dos ritmos imitados doutra dança, a noite finge ser, ainda uma criança de olhos na lua com a sua cegueira da razão e do desejo.
a noite é cega e as sombras de Lisboa são da cidade branca a escura face, Lisboa é mãe solteira, amou como se fosse a mais indefesa princesa que as trevas algum dia coroaram.
não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite, o vento enfim parou, já mal o vejo por sobre o Tejo, e já tudo pode ser tudo aquilo que parece na Lisboa que amanhece...
o Tejo que reflecte o dia à solta, à noite é prisioneiro dos olhares, ao cais dos miradouros vão chegando, dos bares os navegantes, os amantes das teias que o amor e o fumo tecem.
e o Necas que julgou que era cantora e que as dádivas da noite são eternas, mal chega a madrugada tem que rapar as pernas, para que o dia não traia Dietrichs que não foram nem Marlenes.
não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite...
em sonhos é sabido não se morre, aliás essa é a única vantagem de, após o vão trabalho, o povo ir de viagem ao sono fundo, fecundo em glórias e terrores e aventuras.
e ai de quem acorda estremunhado, espreitando pela fresta a ver se é dia, a esse as ansiedades ditam sentenças friamente ao ouvido, ruído que a noite, a seu costume, transfigura.
não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta dessa noite, o vento enfim parou, já mal o vejo por sobre o Tejo, e já tudo pode ser tudo aquilo que parece na Lisboa que amanhece...
sérgio godinho, Lisboa que amanhece, "vida real" 1986
domingo, 15 de julho de 2007
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