passa uma ambulância; na última semana senti vários mortos, mas houve um nascimento. dois a um, ainda assim. e as mazelas do corpo ora se expõem ora se guardam para mais tarde. tenho de ir ao médico por causa de algumas. quero umas drogas leves e que façam efeito nelas. sei que a dor faz parte da vida, mas se poder aliviar algumas, óptimo.
mas adio a(s) consulta(s) por causa do trabalho. a tradução não me dá espaço para mais do que dormir, comer, ler as maiores do jornal e fazer pequenos intervalos para escrever umas coisas soltas ou falar com a g. pequenos momentos de distanciação da coisa. traduzir é um esforço intelectual tremendo, um risco ético. angustia-me e dá-me vida, funciona como uma alavanca, um impulso para ser melhor, para fazer melhor.
até que uma ambulância um dia pare à minha porta e depois passe por outros lugares.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
respirar(-te)
cuspir de imediato a dor enrolada, não permitir que os fios se entrelacem e me puxem para o fundo. cuspir a tua ausência, os teus corpos que nunca te trouxeram, arrancar esta imperfeição, explode coração, dá um estoiro e deixa-me viver.
exigir o presente, quero este momento, só assim, adeus, até já, olá.
a memória, cuidado com ela: guardar sobretudo os alicerces e a capacidade de construir; apagar tudo o que é comezinho, pequenino, depois de filtrado.
respirar fundo. há-de haver um dia em que acabará, ter essa certeza. respirar fundo e abrir caminho.
exigir o presente, quero este momento, só assim, adeus, até já, olá.
a memória, cuidado com ela: guardar sobretudo os alicerces e a capacidade de construir; apagar tudo o que é comezinho, pequenino, depois de filtrado.
respirar fundo. há-de haver um dia em que acabará, ter essa certeza. respirar fundo e abrir caminho.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
pedaço diário
continua um fim de outono muito solarengo. levantei-me uma hora depois do despertador tocar e senti de imediato que todos os planos para hoje iam ser alterados - hoje vai ser à medida de ir sendo. análises? não me apetece; ir à junta de freguesia? amanhã é melhor altura; sento-me em frente ao portátil e vejo o correio: um mail a alertar para a matança das focas bebés no árctico; impressiona, levanta as eternas perguntas sobre a raça humana que não têm resposta ou têm apenas uma, tão óbvia, tão irremediável que decido passar à frente. não reenvio o mail, apago-o. faço a barba e observo o meu rosto; comparo-o com fotografias antigas que tenho na memória: é já tanto o passado, cheio de coisas boas, cheio de coisas más; a memória lá está a confirmar isso tudo e entro numa espécie de transe onde só meu corpo está aqui, mecânico. corto-me no lábio, debaixo da narina, e o sangue e a dor obrigam-me a ver o que estou a fazer. meto-me debaixo do duche, hoje não lavo a cabeça, lavei ontem, hoje não quero, não me apetece. visto-me e tomo o pequeno almoço; estendo a roupa. continuo a pensar no que posso e quero fazer neste dia. sair e tomar café, ora aqui está uma boa ideia!
saio do café e acendo um cigarro. bebi o café ao balcão, ainda agora saí de casa, não quero voltar já. sento-me no banco da paragem do autocarro, o sol bate-me de chapa. não está ninguém na paragem e passam poucos carros na rua. alguém dá um pontapé numa garrafa de plástico vazio que pára perto de mim. penso em miúdos mas não, reconheço o homem, é a segunda vez que o vejo; ele levanta os olhos e estanca por instantes, fixa-me como às vezes as pessoas fazem, como se qualquer coisa as tivesse obrigado a olhar (a ver), como se despertassem de qualquer lugar mais mecânico... senta-se a meu lado e cheira mal; tem as unhas sujas. a roupa está limpa. vai pedir-me um cigarro, digo a mim próprio; não, outra vez - tira um do bolso e acende-o. ficamos ali ao sol a fumar e sei que ele não deve ir a lado nenhum, sei que também ele deve estar a pensar em como ocupar o tempo. apetece-me uma cerveja, pressinto que a ele lhe deve apetecer várias. ou então é já mesmo a vontade de se estar a cagar para tudo (muito, pelo menos) que se lhe tornou maior do que esse mesmo tudo. olho para calçada, a cabeça ligeiramente virada para o seu lado, de forma que o vejo sem olhar para ele. o braço do meu lado está pousado na perna, a outra mão segura o cigarro e a cabeça descai-lhe um bocado. vejo-nos, de repente, como se estivesse fora dali, do lado do sol: dois homens de olhares fixos, pensativos, a fumar um cigarro ao sol numa paragem de autocarro que não lhes trará nenhum destino...
apago o cigarro e venho-me embora. volto para casa. o tempo passa. volto às pequenas coisas mecânicas, é isso, vou deixar o pensamento mandar, começando por colocar o corpo em piloto automático: 1º lavar a loiça, 2º fazer a cama, 3º arrumar o quarto, 4º...
saio do café e acendo um cigarro. bebi o café ao balcão, ainda agora saí de casa, não quero voltar já. sento-me no banco da paragem do autocarro, o sol bate-me de chapa. não está ninguém na paragem e passam poucos carros na rua. alguém dá um pontapé numa garrafa de plástico vazio que pára perto de mim. penso em miúdos mas não, reconheço o homem, é a segunda vez que o vejo; ele levanta os olhos e estanca por instantes, fixa-me como às vezes as pessoas fazem, como se qualquer coisa as tivesse obrigado a olhar (a ver), como se despertassem de qualquer lugar mais mecânico... senta-se a meu lado e cheira mal; tem as unhas sujas. a roupa está limpa. vai pedir-me um cigarro, digo a mim próprio; não, outra vez - tira um do bolso e acende-o. ficamos ali ao sol a fumar e sei que ele não deve ir a lado nenhum, sei que também ele deve estar a pensar em como ocupar o tempo. apetece-me uma cerveja, pressinto que a ele lhe deve apetecer várias. ou então é já mesmo a vontade de se estar a cagar para tudo (muito, pelo menos) que se lhe tornou maior do que esse mesmo tudo. olho para calçada, a cabeça ligeiramente virada para o seu lado, de forma que o vejo sem olhar para ele. o braço do meu lado está pousado na perna, a outra mão segura o cigarro e a cabeça descai-lhe um bocado. vejo-nos, de repente, como se estivesse fora dali, do lado do sol: dois homens de olhares fixos, pensativos, a fumar um cigarro ao sol numa paragem de autocarro que não lhes trará nenhum destino...
apago o cigarro e venho-me embora. volto para casa. o tempo passa. volto às pequenas coisas mecânicas, é isso, vou deixar o pensamento mandar, começando por colocar o corpo em piloto automático: 1º lavar a loiça, 2º fazer a cama, 3º arrumar o quarto, 4º...
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