continua um fim de outono muito solarengo. levantei-me uma hora depois do despertador tocar e senti de imediato que todos os planos para hoje iam ser alterados - hoje vai ser à medida de ir sendo. análises? não me apetece; ir à junta de freguesia? amanhã é melhor altura; sento-me em frente ao portátil e vejo o correio: um mail a alertar para a matança das focas bebés no árctico; impressiona, levanta as eternas perguntas sobre a raça humana que não têm resposta ou têm apenas uma, tão óbvia, tão irremediável que decido passar à frente. não reenvio o mail, apago-o. faço a barba e observo o meu rosto; comparo-o com fotografias antigas que tenho na memória: é já tanto o passado, cheio de coisas boas, cheio de coisas más; a memória lá está a confirmar isso tudo e entro numa espécie de transe onde só meu corpo está aqui, mecânico. corto-me no lábio, debaixo da narina, e o sangue e a dor obrigam-me a ver o que estou a fazer. meto-me debaixo do duche, hoje não lavo a cabeça, lavei ontem, hoje não quero, não me apetece. visto-me e tomo o pequeno almoço; estendo a roupa. continuo a pensar no que posso e quero fazer neste dia. sair e tomar café, ora aqui está uma boa ideia!
saio do café e acendo um cigarro. bebi o café ao balcão, ainda agora saí de casa, não quero voltar já. sento-me no banco da paragem do autocarro, o sol bate-me de chapa. não está ninguém na paragem e passam poucos carros na rua. alguém dá um pontapé numa garrafa de plástico vazio que pára perto de mim. penso em miúdos mas não, reconheço o homem, é a segunda vez que o vejo; ele levanta os olhos e estanca por instantes, fixa-me como às vezes as pessoas fazem, como se qualquer coisa as tivesse obrigado a olhar (a ver), como se despertassem de qualquer lugar mais mecânico... senta-se a meu lado e cheira mal; tem as unhas sujas. a roupa está limpa. vai pedir-me um cigarro, digo a mim próprio; não, outra vez - tira um do bolso e acende-o. ficamos ali ao sol a fumar e sei que ele não deve ir a lado nenhum, sei que também ele deve estar a pensar em como ocupar o tempo. apetece-me uma cerveja, pressinto que a ele lhe deve apetecer várias. ou então é já mesmo a vontade de se estar a cagar para tudo (muito, pelo menos) que se lhe tornou maior do que esse mesmo tudo. olho para calçada, a cabeça ligeiramente virada para o seu lado, de forma que o vejo sem olhar para ele. o braço do meu lado está pousado na perna, a outra mão segura o cigarro e a cabeça descai-lhe um bocado. vejo-nos, de repente, como se estivesse fora dali, do lado do sol: dois homens de olhares fixos, pensativos, a fumar um cigarro ao sol numa paragem de autocarro que não lhes trará nenhum destino...
apago o cigarro e venho-me embora. volto para casa. o tempo passa. volto às pequenas coisas mecânicas, é isso, vou deixar o pensamento mandar, começando por colocar o corpo em piloto automático: 1º lavar a loiça, 2º fazer a cama, 3º arrumar o quarto, 4º...
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
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2 comentários:
dás-me um dia assim vagabundo e eu dou-te outro tanto.
às 13.45 voltava quase do almoço. o trabalho tem estas estranhas coisas. "hora de almoço". "hora de entrada" "hora de saída". para quem cumpre claro. quem não cumpre estes tempos o trabalho entra-lhe por todas as horas adentro. é o meu caso. um pouco assim. mas vai deixar de ser assim, nem tanto assim nem tanto assim. procuro um equilíbrio díficil entre assim e assim. não pode ser à medida do que ia sendo, mas que graça teria se fosse sempre indo sendo. nem saberíamos o que isso seria.
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